Quando Nietzsche Chorou:Filosofia, psicanálise e literatura

por PeterPan

Filosofia e psicanálise são sem dúvida dois temas com muito em comum. Não são poucos os romances que tentaram e ainda tentam se aventurar por esse terreno não promissor e ao mesmo tanto tão traiçoeiro. Promissor, porque, um dialogo com esse grau de complexidade sempre tem muito a oferecer ao leitor mais atento. Traiçoeiro porque falar em escrever sobre filosofia e psicanálise sem cair no “samba do escritor doido” em que os livros terminam mais parecidos com manuais de alto ajuda de intelectualidade duvidosa do com qualquer outra coisa, é uma tarefa muito complicada.
Quando Nieztsche Chorou (Ediouro, 2005, R$ 49,90) consegue aventurar-se sobre esse fértil terreno sem deixar-se apanhar pela areia movediça do pseudo-intelectual. O romance de estréia do psicoterapeuta e professor de psiquiatria da Universidade de Medicina de Stanford, Irvin D. Yalom, é uma obra de fazer os críticos mais xiitas darem o braço a torcer.
Usando como plano de fundo a Viena do final do século XIX, o livro conta-nos sobre uma psicoterapia fictícia que teria envolvido dois personagens históricos que, na realidade, jamais se encontraram: o médico Josef Breuer e o filósofo Friedrich Nietzche.
Breuer é um médico Vienense bem sucedido. Apesar de ser de ascendência judaica, e de praticar alguns preceitos religiosos de forma mecânica, é um ateu convicto que se sente preso a uma vida que sente não ter escolhido. Está casado com uma mulher bonita, e têm filhos, mas sente-se só e numa vida sem sentido. Uma paixão com uma de suas pacientes, Berth, que sofria de problemas mentais graves, levou a sua mulher a exigir-lhe que a enviasse para outro médico. No entanto, Breuer nunca conseguiu afastar da sua mente Bertha, passando os dias a pensar nela. Até que em Veneza lhe aparece Lou Salomé, uma mulher russa, que lhe pede para tratar de um problema de enxaquecas constantes que um amigo seu sofre, e que está no limiar do suicídio.
Esse amigo de Lou Salomé é um filósofo alemão praticamente desconhecido das pessoas da época, Friedrich Nietzsche. Mais do que ateu, Nietzsche é um dos pais do Nihilismo, defendo que Deus foi algo criado pelo homem, e entretanto morto pelo mesmo homem. Apesar de já ter várias obras publicadas, estas são conhecidas apenas por um punhado de pessoas. Ele mesmo afirma que o seu primeiro discípulo está ainda por nascer, acreditando que um dia os seus pensamentos serão lidos, conhecidos e respeitados, mas que não estará já vivo para assistir. Sentindo-se traído pelo seu corpo que não lhe dá descanso, pelos amigos que não acredita ter e pela mulher que não o ama, vive como um saltimbanco solitário. O seu orgulho é a única coisa que o motiva ainda a viver, tentando passar para o papel todos os seus pensamentos para futuras gerações.
Ao longo de todo o livro, o leitor é levado a tentar perceber a maneira de pensar destas grandes mentes enquanto também eles o fazem entre si. Ao longo das séries de conversas, somos convidados a fazer as perguntas que Breuer e Nietzsche colocam um ao outro, a nós mesmos. Juntos, esses dois homens combatem inimigos, que no fundo são velhos conhecidos de todos nós: o desespero, a solidão interior, a obsessão amorosa e sexual, a morte e o sentido da vida. Estas conversas podem ser encaradas quase como precursoras da Psicologia e Psicanálise, juntando a tudo isto um personagem que aprece na trama diversas vezes como um para aconselhar Breuer, o seu discípulo Sigmund Freud.
- Não sei curar o desespero, doutor Breuer. Apenas eu o estudo. O desespero é o preço pago pela autoconsciência. Olhe profundamente para dentro de si e sempre encontrará o desespero (p. 192).
Quem já está familiarizado com a obra do filosofo alemão vai reconhecer os embriões de várias importantes idéias como, por exemplo, a famosa “Teoria do Eterno Retorno”. O autor também teve o cuidado de não mencionar no romance idéias presentes em livros muito posteriores ao momento em que a trama se desenvolve, fato que é observado por ele mesmo em sua nota, no final do livro.
Quando Nietzsche Chorou também é uma ótima introdução para aqueles que querem saber mais sobre a filosofia nietzschiana, mas ainda não estão dispostos ou não se sentem preparados para encarar os livros do autor.
Finalmente um best-seller que pode ser seguramente comentado em uma rola de intelectuais sem gerar maiores constrangimentos (ao contrário de saudosos autores como Paulo Coelho e a Isabel Allende). Leitura indispensável para todos que se interessam por filosofia, psicanálise ou apenas por um ótimo e cativante romance.

*Essa resenha foi um trabalho de Prática de Produção Textual, achei que seria boa para começar. Espero que gostem e tenham vontade de ler o livro depois.

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