Um dia escutei pessoas falando sobre os dias contados do Jornal impresso, com o advento da internet and all that jazz.
No entanto, eu acredito de forma sincera que o Jornal de papel não perde campo para internet não.
A diferença é que realmente as pessoas sem tempo e que antes não compravam o jornal em papel por estarem atrasadas demais ou trabalhando demais, vão passar a se informar pela internet. As demais que compram o jornal regularmente por qualquer motivo, seja por estarem na rua, ou simplesmente por terem um longo caminho até o trabalho continuam comprando nas bancas seu jornal.
O que é bom, diga-se de passagem.
Afinal, estamos vivendo em tempos de um grande boom informacional e isso se mostra no alcance que a notícia ganha nos dias atuais.
Pego carona nas falas do Bourdieu sobre mídia e tento colocá-las de maneira a não tirar uma idéia equivocada entre estes dois pontos ( midia impressa e midia eletrônica) e vice-versa. como ele mesmo diz " Consciente também de que o que faço se inscreve no prolongamento, e no complemento, do combate constante de todos os profissionais da imagem empenhados em lutar pela 'independência de seu código de comunicação' " . Desta forma, o campo informacional se abre em um leque enorme. Em disputas como tantas outras inseridas na disputa simbólica do campo cultural-informacional.
A a dominação cultural e simbólica muda um pouco sua elevada forma de capital simbólico que existia anteriormente. Em épocas distantes a TV era soberana. Nos dias atuais, isto gradativamente vai se transferindo sim para a internet, mas não totalmente. Da mesma forma que o rádio não morreu com a ascenção da TV, a midia impressa não morrerá com a internet. Ganhará outra importância simbólica, mas não se tornará obsoleta como um telégrafo. Afinal, estamos tratando de mídias com um grande potencial criativo no que diz respeito ao capital simbólico informacional. E posto isso, acredito sim que o jornal de papel não perde totalmente sua importancia informacional e sua importancia na formação do capital simbólico e na dominação cultural do mesmo por meio do seu próprio conteudo informacional e sua versatilidade criativa e de modalidade de discurso.
Os dois convivem lado a lado e não entram em conflito. E mais ainda, podemos ver a pluraldiade de discursos cada vez maior em nosso meio informacional. Em outras palavras, mais elementos entram na disputa de campo que é a própria difusão simbólica da informação neste dias em que vivemos.
e o céu é o limite, me arrisco dizer.
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“Carnaval é uma grandiosa cosmovisão universalmente popular de milênios passados... é o mundo às avessas”. (Bakhtin, 1970)
E o carnaval Antigo? Mas aquele antigo mesmo...
Temos tantas possíveis origens e tantas cores que nos perdemos às vezes em alguma explicação. Não querendo perder o fio da meada, da mesma forma que o folião não quer perder o caminho que o bloco faz, vou tentar me ater unicamente a importância e o sentimento deste festival.
Vamos pensar nas soberbas folias pagãs, em época onde marcha de carnaval era algo mais perigoso que lança perfume em mãos juvenis...
Quando o culto dionisíaco é liberado nas póleis gregas da antiguidade, algo nasce aos meus olhos. Um sentimento brota do culto, e mais que isso, uma vitalidade humana toma corpo e forma na procissão dionisíaca. E essa centelha de entusiasmo e embriagues, aliada a própria representação do deus dos prazeres do vinho dá o “ponta-pé inicial”, ao menos para mim, no sentimento do carnaval.
Teria sido então Pisistrato, tirano de Atenas nos anos de 605 a 527 a.C. que teria regularizado o culto pelas bandas de lá. O que tornou toda a algazarra parte de um corpo oficial e onde em vias de inversão, a temporalidade era tratada de forma especial, bem como os atos, e que atos! Afinal, quer forma melhor de tratar o deus marginal que com festejos? Aquele que fora expulso do Olimpo, todos os anos chegava a Pólis com seu “carro abre-alas” sendo puxado por Sátiros e Ninfas em furor embriagado, sendo festejado com músicas, danças, vinho e a tão famigerada folia sexual, o que deveria ser bem mais selvagem em épocas sem campanha televisiva de controle ao consumo de bebida e ao uso de métodos contraceptivos...
Pois veja bem, as festas dionisíacas eram em quatro e se dividiam ao longo do ano. As Dionísias Rurais, as Leneias, as Grandes Dionisias e as Antestérias, que nesta ordem se estendiam de Dezembro até Março. E assim, um casamento com a terra em busca de fertilidade ganhava forma e profusão século VI a.C. à dentro. Porém, alegria de pierrô bêbado em carnaval dura bem pouco, e, como todos devem saber, o culto que implicava em uma liberdade física jamais imaginada, tentou ser justificado e proibido no século V a.C., o século de maior desenvolvimento cultural da época. Porém, o estrago já estava feito. A selvagem folia nascera.
E os anos passaram e a selvageria da carne e dos prazeres crescera. Com o fim do período clássico (quinto e quarto séculos a.C.) Não mais Dioniso, mas agora Baco, como era conhecido o deus, fez Roma ver em sua figura igualmente entorpecida, o escape de suas tensões humanas. As Bacantes e seus festejos invadem e estouram pelas vielas romanas, levando o transe e a escandalosa desordem com seus bacanais. E tanto fizeram com o vinho, que a transgressão beirava a subversão, e, em 186 a.C. o senado suspendeu os Bacanais oficialmente, o que sinceramente, não coloca fim algum nesta prática ritual, afinal, como todos devem saber, os bacanais são apreciados até hoje em certas casas cariocas...
Mas os festivais dos prazeres e das transgressões na antiguidade não se resumem apenas ao culto bacante. Os festivais das Saturnálias com toda sua sacralidade e honra ao tempo que devora, mostra, antes de qualquer coisa, a inversão de autoridades e normas como base de um espírito carnavalesco embrionário nas estruturas romanas.
Escravos dizendo o que bem entendiam dos senhores e um ritual vigoroso de inversão que só terminava com a purificação das casas, após os dias de lascivos festejos, que com o tempo acabou por coincidir com os rituais das Lupercálias - no fatídico fevereiro - onde sacerdotes de Pã vestidos como seu culto mandava (ou seja, nus), saiam pelas ruas em grandioso fervor e estupor, batendo com chicotes em quem se aproximasse. Tudo na mais perfeita sacralidade de inversão. Afinal, o carnaval na antiguidade, assim como nos tempos mais contemporâneos se mostra como uma trégua, um alívio da hipocrisia social e do medo do corpo o qual somos culpados.
E o tempo tratou de varrer esses costumes, guardando-os na memória embriagada e fiel de uma civilização inteira, mesclando-se com tantos outros festivais ao longo da história ocidental, até chegarmos no Rio de Janeiro, local de Pierrôs que choram suas colombinas carnavalescas e com marchinhas que dão o tom da dança alegre do Pã carioca, onde o primeiro clarim anuncia a sacralidade dionisíaca que só a alegria foliã pode trazer.
Seja na Antiguidade ou nos dias atuais, o homem festeja.

"As pessoas têm medo das mudanças. Eu tenho medo que as coisas nunca mudem”.
Essa citação, bem clichê e digna daqueles conselhos calorosos de bar foi a matriz ( não caótica) do meu pensamento sobre a excelente montagem da peça de Bertold Brecht em cartaz no CCBB. Um grito, um escárnio ressentido do conformismo e da sobrevivência.
Mãe Coragem e Seus Filhos é contada durante a Guerra dos Trinta Anos, conflito entre a França e a Baviera, recortando e costurando a postura de uma mascate que, ao puxar sua carroça junto de seus filhos vive o cotidiano da guerra. A situação é precária e seus filhos morrem um por um, vítimas da guerra, do acaso e do conformismo.
Mas existe culpa para o conformismo? Sim existe, mas na mesma proporção que existe culpa naquele que mata para comer. No entanto, aquele que se conforma mata sua liberdade, mata sua consciência crítica e mata tantas outras coisas em troca da sobrevivência. Mãe coragem é um anti-herói. Ela tenta a todo custo viver da guerra, sobreviver da guerra e em troca, a guerra leva seus filhos e sua vida. O escárnio do texto de Brecht ajuda a não apenas que a idéia se torne perturbadora, mas que acima de tudo pensemos sobre o que o conformismo pode nos levar.
Mãe coragem sobrevive a tudo e a todos, mas perde no final das contas. Católico ou protestante, não importa. A guerra quando santa é aquela que mostra contornos mais cruéis. O que era coragem se torna crime e o que é covardia se torna bravura. A peça é um belo aviso. Um grito e um tapa. Mas um tapa em quem? Não é um tapa na sociedade epistemológica, nem um tapa naqueles que fazem a guerra ou em quem - detendo o poder simbólico - promove o conformismo. Não, de forma alguma. O tapa é dado em nós. Aqueles que mais cedo ou mais tarde terão de fazer a escolha de se conformar e sair com o rabo entre as pernas ou de subir na colina mais alta e bater o tambor em alto em bom tom para que todos possam escutar as atrocidades do mundo.
Conformar e sobreviver podem ser mais fáceis. No entanto, coragem mesmo é lutar. Nosso único dever para com a história é reescrevê-la.
Não nos basta rezar para dias melhores. Basta querer e estar disposto. Basta ter coragem.

Mais considerações acerca do Outro: Existência e Sentimento.
O Outro, quase sempre, se encontra no abismo inquietante da charada desconhecida, porém visível. O existencialismo cotidiano, assim como postulado por Sartre, pode ser de bom uso, justamente por trazer a tona às inquietações da existência, aquelas que durante séculos antigos filósofos e sacerdotes buscaram como objetivo máximo livrá-las do indivíduo.
Mas como entender essas colocações sem antes compreender que o homem é não apenas como ele se concebe – como ele quer que seja – mas, como ele se concebe depois da própria existência? A dificuldade de entender o outro se encontra no primeiro princípio postular do existencialismo que precede a essência. Encontra-se na dificuldade do ser humano de entender que o homem não é mais que meramente o que ele se faz. E o outro é parte importante na concepção inicial do que ele pode ser e tornar-se. O estranhamento que o outro nos causa é proveniente, como podem ver, do abismo existente dentro de nós mesmos para com o mundo ao nosso redor.
O homem escolhe a si e, desta forma, o estranhamento. Ele ao escolher-se, escolhe todos os outros. Nossos pequenos atos rituais, que figuram dentro do estranhamento, se enquadram dentro do ato existencial da escolha do que desejamos ser, criando nesta possibilidade a imagem - a representação em simulacro - daquilo que julgamos que um homem deve ser.
No entanto, possuímos uma consciência que não nos permite cultuar algo que não nos venha trazer, ao menos, algum benefício direto. Criamos por meio deste artifício – consciente ou inconsciente - quase sempre mais um abismo ao depararmos com um estranho, um outro que pratica de atos que não nos são caros e que – na maioria das vezes - no causam repúdio, justamente pelo desconhecimento da existência que precede a essência, aplicada aos pequenos rituais diários, bem como a nós mesmos em nossa escolha existencial.
A não adequação de nossos sentimentos pelo outro, nos foi transmitida - em grande parte - pelos antigos gregos. Aristóteles já falava em textos como a Poética e a Retórica, sobre sentimentos como a compaixão e a inveja dentro do esquema do que ele chamava de “leis particulares” (em oposição as leis gerais), as quais se encontram nestes dias atuais no que chamamos - de forma bastante controversa e mutável - de ética e moral. O outro, como nos diz Aristóteles, Não estaria sujeito a compaixão, pois esta só estaria acessível para aqueles que nos são próximos, no máximo conhecidos. O mesmo podendo se aplicar à inveja, sendo um sentimento então comum sobre aqueles que nos rivalizam, e, assim o fazem, por serem não apenas próximos, como também dotados de nossas próprias práticas e vivências. Não se sente inveja por aqueles bárbaros que moram junto das colunas de Hércules, nem por aqueles de gostos exóticos. Em verdade, para estes, nos resta a indiferença enquanto for possível. Pois, quando eles se aproximam, o estranhamento não é apenas inevitável, como também uma das faces do conflito causado pela existência – não compreendida como anterior à essência – do Outro.
E assim como Ginzburg, eu sou da opinião que, dentro do âmbito que Aristóteles chamou de “lei geral”, entender a compaixão ao outro – quando livre de preconceitos e estereótipos – só pode ser mantida e até mesmo elaborada, por meio de uma retórica tão forte que consiga colocar nós mesmos em suspensão, o que é, obviamente, uma falácia. Afinal, a má fé consiste em agirmos sem consciência da angústia que todos nós estamos sujeitos. Sem a compreensão adequada que os atos estão ligados ao coletivo e que nós, quando definimos nossas “leis particulares”, como na fala de Aristóteles, estamos em verdade, tentando escapar da consciência da existência não apenas do outro, mas de nós mesmos.

Hoje, quebro o protocolo e deixo com vocês uma parte do texto do professor Marcelo badaró da UFF sobre a temível e terrível aprovação do REUNI na Federal Fluminense...
"Hoje (14/12/2007), pela manhã, vi muitos estudantes da Universidade FederalFluminense (UFF) com os olhos vermelhos e em lágrimas. Era o efeito do sprayde pimenta lançado por policiais militares que, aos empurrões e com ameaçasde prisão, impediram seu acesso ao prédio do Tribunal de Justiça de Niterói,aonde se realizaria uma reunião relâmpago do Conselho Universitário da UFF,que aprovou por unanimidade dos presentes o envio ao MEC de um projeto para"a adesão da UFF ao REUNI", conforme logo noticiaram os sítios da imprensadiária.
O REUNI, para quem não acompanhou toda a história, é um programa de expansão, instituído por decreto pelo governo Lula da Silva, que prevê (mas não garante) um pequeno aporte de novos recursos para as Universidades Federais, em troca da expansão de vagas para estudantes para até o dobro dasatuais e a conversão dos cursos superiores a um modelo de formação mais rápida, em dois ou três anos e sem habilitação profissional precisa. Ou seja, trata-se de uma proposta de trocar promessas de novos recursos por uma completa mutação dessas instituições em fábricas de diplomas.
A UFF foi uma das últimas Universidades Federais a aprovar o envio de projeto. Por um só motivo: a comunidade universitária discutiu a proposta e, a partir das decisões de seus fóruns internos, posicionou-se, por ampla maioria, contrariamente ao REUNI. Mas, o reitor Roberto Salles e seus apoiadores não poderiam se contentar em reconhecer a vontade da Universidade. Para imporem a sua vontade (e os seus interesses), recorreram a uma série de manobras, ao uso aberto da repressão e a um cinismo sem precedentes na instituição. Primeiro, suspendendo a sessão do conselho universitário em que a primeira versão da proposta seria votada e certamente rejeitada. Seguiu-se uma breve ocupação dos estudantes na reitoria da Universidade, exigindo a realizaçãodo conselho para que o projeto fosse rejeitado. Mandatos judiciais, emprego da polícia federal e ameaças de toda ordem já foram ali mobilizadas pelos que hoje administram a UFF.
Dias depois, uma nova reunião do conselho votou que a UFF não aderiria ao REUNI e elaboraria um projeto próprio de expansão, autônomo, a partir do trabalho de uma comissão de representantes do conselho universitário. Desrespeitando o Regimento do conselho, o reitor não aceitou as indicações do DCE (a entidade representativa dos estudantes) para a comissão, o que já deixava claro o conteúdo de sua manobra. Não foi preciso esperar muito, pois logo o tal "projeto autônomo" foi divulgado e, surpresa!, era o mesmo projeto anterior, mal travestido pela ausência da palavra REUNI (só da palavra, não da coisa, toda ela lá). Num novo movimento, o reitor tentou aprová-lo em uma reunião ordinária do conselho em que a proposta não estava em pauta e, portanto, ninguém a havia lido. Depois de muita confusão, recuou e convocou nova reunião do conselho, dessa feita extraordinária, com apenas o projeto, até ali dito "autônomo", para aprovar.
No dia 12, a reunião extraordinária foi aberta com falas das entidades representativas dos professores e servidores técnico-administrativos, contrárias ao projeto e com uma apresentação do mesmo feita por um membro da comissão, em cinco minutos, que não tocou em uma linha do conteúdo da proposta. Em seguida, desrespeitando os procedimentos estabelecidos no regimento do conselho, o reitor tentou colocar a proposta em votação de imediato, sem qualquer debate. O resultado foi uma confusão, armada a partir do momento em que os estudantes presentes à sessão começaram a protestar com palavras de ordem e músicas. Trocas de empurrões e cenas lamentáveis, como a do próprio reitor empurrando estudantes. Enquanto saía da sala de reuniões, revelando o grau de cinismo de sua performance e desvelando, ao mesmo tempo, que o projeto que não ousava dizer seu nome nada tinha de "autônomo", o reitor Roberto Salles protagonizou uma cena realmente bizarra. Primeiro pronunciou, em meio à gritaria, a frase: "os conselheiros que concordamlevantem as mãos" e, em seguida, braços para o alto, na porta da sala, de onde correria em seguida para se trancar no seu gabinete, com a Polícia Federal lhe servindo de escolta pessoal, gritou: "Está aprovado o REUNI naUFF". O rei(tor) estava mesmo nu. À tarde do mesmo dia declararia que considerava o projeto aprovado e que abriria inquéritos para punir os estudantes que se manifestaram no Conselho.
As mesmas vozes de cima (do MEC), dos que manipulam os cordões desse patético reitor marionete devem ter lhe soprado ao ouvido que desta forma corria-se riscos. Afinal, o REUNI não é um projeto local e a UFF não é uma exceção. No Brasil todo, o projeto tem sido aprovado com manobras como esta em cada Universidade. Discussões com a comunidade e a sociedade, não as há,e quando excepcionalmente acontecem, por pressão dos movimentos organizados, a comunidade universitária se posiciona contra. Mas, seguem-se encenações como a que Roberto Salles tentou fazer na UFF e os projetos são enviados a Brasília. Por isso, no Pará e no Maranhão, por exemplo, decisões de primeira instância da justiça federal suspenderam a adesão dessas Universidades ao REUNI.
Seguindo os movimentos indicados por seus operadores, o reitor títere da UFF partiu para o inusitado, convocando o conselho universitário para uma nova reunião, desta feita no Palácio da Justiça de Niterói. Lá, foram barrados com violência policial na porta, não apenas manifestantes, mas também alguns conselheiros. Com uma sessão secreta, o tal reitor, que tem dificuldades até para encenar o script que lhe escrevem, deve ter tido um pouco mais de facilidade para, tão logo chegaram os conselheiros (os que o apoiaram) que garantiram o quorum da sessão, colocar o projeto em votação (terá ele desta vez se lembrado de dizer que era um projeto "autônomo"?) e, em menos de cinco minutos, considerá-lo aprovado, para em seguida se esgueirar por uma portinha lateral do prédio e fugir (deve ser a sua décima fuga), dos estudantes, professores e técnicos que deveria representar.
Impressiona a lógica da razão cínica que foi esgrimida na UFF. Apresenta-se como benefício o que a maioria já avaliara como regresso; apresenta-se como"novo" e "autônomo", o que a comunidade universitária, que sabe ler, enxerga ser o mesmo; votos mudam ao sabor do vento, de tal forma que o que era ilegal numa tarde vira legal na manhã seguinte, no voto de um mesmo conselheiro; contrariam sem dissimulações os procedimentos institucionais para "aprovar" a proposta e solenemente proclamar a "vitória". E, cinicamente, comemoram, como tristemente demonstrou um estudante na porta do prédio que, por compromisso partidário com o governo, defendeu a proposta e pôs-se a provocar os manifestantes com argumentos sobre a "conquista" de novas verbas para a UFF. Roberto Salles, rei(tor), já havia encenado a apoteose, no episódio já narrado em que ergueu os braços e proclamou, não sem antes ter dado uns safanões em estudantes, com o mesmo sorriso cínico na boca: "Está aprovado o REUNI na UFF".
Não devemos nos contentar em constatar essa razão cínica - este gozo perverso, esta legitimação do vale-tudo - apenas observando os seus sintomasno interior de uma Universidade que se quer modelo, mas se faz espelho da deformada sociedade em que vivemos. É preciso encontrar as causas deste cinismo patológico deformado e deformador. E essas causas estão no interior da própria universidade pública (vinculadas ao projeto que sucessivos governos lhes impõe de subordinação ao mercado), corroendo-lhe o caráter público há muitos anos. Não a toa, o mesmo reitor da Universidade Federal do Paraná, que aprovou o REUNI a portas lacradas, foi agora multado pela justiça por descumprir deliberações do Tribunal de Contas da União, que constatou a transferência indevida de recursos públicos a uma fundação privada, dita de "apoio" (pode haver mais cinismo do que nessa expressão?) à Universidade. Ou mais patético, a mesma procuradora da Universidade Federalda Bahia, que comandou a mobilização da Polícia Federal para a desocupaçãoda reitoria da universidade - ocupação feita, como em tantas outras universidades pelo país contra a aprovação do REUNI em reunião a portas fechadas do conselho de lá - dias depois entrou algemada numa viatura da mesma Polícia Federal, acusada de formação de quadrilha e desvio de dinheiro público. No segundo episódio o sorriso não lhe escapava como, cinicamente,ocorrera no primeiro.
Os olhos dos estudantes da UFF lacrimejavam hoje por causa do spray de pimenta, mas eles não se sentiram vítimas. Eles tinham consciência de que enfrentariam mais violência e sabem também que dado o atual estrangulamento da Universidade Pública, os que nelas estudam são tão poucos que os PMstemem agredi-los com maior vigor, com um medo de esbarrar em algum filho de"gente importante" que não manifestam quando dispersam a bala uma manifestação de moradores de favelas, por exemplo. E tendo consciência disso, aqueles estudantes lutam pela ampliação do acesso à UniversidadePública, para garantir o direito à educação de todos(as). Mas a uma educação superior de qualidade e não a uma certificação vazia de conteúdo em cursos por internet ou televisão, vídeo-games de formação, que produzirão canudos para quem não terá parede em que possa pendurá-los. Um dos estudantes que estava hoje lá na porta do tribunal perdeu recentemente a visão e participou de todo o ato, sendo também agredido pelos policiais, porque enxerga claramente no que os cínicos estão transformandoas Universidades Públicas. Quantos de nós continuaremos nos fingindo, cinicamente, de cegos, enquanto o sentido público da Universidade sedesmancha por inteiro? Eu junto as minhas forças com Daniel, que está semvisão, mas enxerga, e continua disposto a usar a pedra contra o tanque e aseguir nessa jornada, para lutar nossa própria batalha e alterar essa terra."
