Tapete Persa
O tempo passa, revemos nossos conceitos
Nov 16th
Há pouco o ofídio me passou a senha deste portal novo, e avisou que havia colocado os posts do Tapete Persa por aqui. Reli o que havia escrito e quase rolei de tanto rir.
Nietzsche define a vida como vontade de potência, uma vontade de superação, de mudança constante; para ele, um homem sem vontade de potência é um homem morto, pois estático. Pode parecer elitista… E, de fato, é. Para Nietzsche, a vida não é para todos. Em tempos de inclusão social, isso soa como uma falácia aos politicamente corretos; não o acho. O ponto é: minhas reflexões conceituais dos últimos meses me obriga a escrever esta retratação. Não é como uma crise de consciência, ou uma epifania búdica; é mais como o exercício da vontade de potência, o superar a si mesmo, esticar os horizontes ao ponto limite. Hoje, devo negar e criticar aquilo que disse em “Os rótulos e a música”.
Ponto de hoje: não acredito mais em uma essência, uma característica ontológica da arte em geral, algo que separe “boa arte” de “má arte”, a não ser os gostos de terceiros com determinados capitais simbólicos. Nestes 12 meses que se passaram, creio que tornei-me um anti-humanista aos moldes Foucaultianos. Deixei de acreditar em uma essência do homem enquanto uma entidade ahistórica. Como conseqüência, toda a produção humana deixa de ter uma essência, uma ontologia. Em outras palavras: o que é bom ou ruim é, invariavelmente, produto de um ponto de vista, e, na maior parte das vezes, tal ponto de vista expressa uma força de dominação discursiva que nos é alheia e, ao mesmo tempo, nos atravessa, em corpo e mente. Assim, deixei de ver sentido em expressões como “mercado fonográfico corrompido”, “massa de ouvintes sem senso crítico” e “lixo auditivo”, entre outras. Vejo, por outro lado, uma vontade de auto-afirmação baseada no rebaixamento do Outro; um definir-se pela ridicularização do Outro; uma busca de legitimidade através da desqualificação do Outro.
Cito Foucault, roubando sua frase para meu contexto: “Essas não são as minhas maneiras de fazer; não pertenço ao mundo daqueles que delas se utilizam.” (p. 225, “Ditos e Escritos, volume V, Ética, Secualidade, Política”) Prefiro o reconhecimento da diferença sem uma escala de valores. É claro, ainda vou apreciar mais aquilo que, pessoalmente, gosto, mas o esforço está em se constituir sem empreender uma cruzada de imbecilização do Outro. O esforço está em respeitar a diversidade e não se colocar acima de outrem.
Sobre o casamento…
Nov 19th
Um amigo, Erick Van Pato, da UFF, escreveu um texto muito interessante a respeito do casamento. Como disse a ele, apesar da linha de raciocínio não ser a que eu seguiria, e de eu não concordar com um ou outro ponto, a redação ficou ótima, bem clara e de fácil digestão.
Clique aqui para ler diretamente no Live Journal do autor.
Essa semana devo retornar com algum texto, embora ainda não saiba se vai ser de humor ou de reflexão um pouco mais séria. Enfim… Até.
Brasil república: corrupção… digo, parabéns!
Nov 15th
Em comemoração à proclamação da república, em 15 de novembro de 1889, viemos deixar nossas felicitações ao país onde a res publica se torna cada vez mais privada, e flui cada dia mais para bolsos alheios aos nossos.
E como diriam os “patriotas estadunidenses”: Deus salve o Brasil. Porque do jeito que está, sinto muito, só Javé, Alá, Shiva, Amaterasu e Odin juntos para arrumar a casa.
A propósito, essa alfinetada vale para você também, que fura fila, pega troco errado e dá um jeitinho de pagar menos imposto. Como diria o Capitão Nascimento: os senhores são uns fanfarrões!
Não gostou? “Bota na conta do Papa”.
Os rótulos e a música…
Nov 13th
Hoje em dia é muito comum acontecer o que os americanos chamam de tagging – ou “etiquetagem” – das bandas e qualquer um que se atreva a entrar no mundinho exclusivo e selvagem da música. Culpa de um mercado fonográfico cada vez mais corrompido, de uma massa de ouvintes sem senso crítico e do número cada vez maior de oportunistas que se auto-denominam “bandas”, que produzem toneladas de lixo auditivo ou “barulho ritmado”. Inclusive eu e um amigo brincamos ainda outro dia sobre os livros de história da música de 2347, onde poderíamos encontrar que “em fins do século XX e começo do XXI a música iniciou sua espiral descendente em uma velocidade muito acelerada, com o surgimento de pseudo-estilos pseudo-musicais,” etc, etc, etc… Mas voltando ao tagging, conversando com mais amigos, fizemos uma brincadeira e tentamos imaginar como funcionaria esse tagging durante o barroco e o romântico. Confesso que dei boas risadas – e se você não der… Bem… Sinta-se 10% mais burro, ou pelo menos 10% menos interessado em música.
Imaginem a ocasião de J.S. Bach olhando para as partituras de Vivaldi com os olhos brilhando e dizendo “Ai, ele fazia um barroco melódico emocional que era uma beleza!”, quando Händel chegaria dizendo “Discordo. Eu acho que o Vivaldi faz um hard barroco old-school muito mais impactante que esses compositores melódicos…”
Alguns anos mais tarde Beethoven analisaria as partituras dos três supracitados. “É, esse Vivaldi sabia mesmo o que estava fazendo. Ele fazia um über-soft barroco neo-old-school melódico muito interessante… Já o Bach-pai era um cara muito mais emocional e chocante, fazia um barroco proto-romântico emocional muito bom. Não posso dizer o mesmo de Händel, com seu pseudo-hard barroco old-school… Não suporto esse cara!”
Mais tarde, Wagner olharia para todos e faria uma nova interpretação. “Beethoven falou bem sobre Vivaldi e Bach-pai, mas acho que ele subestimou demais o Händel. Eu diria que ele é mais um dark barroco old-school muito mais denso do que aparenta… E bem, o próprio Beethoven faz um emotional romanticore pós-barroco que não está entre os meus favoritos.”
Sobre a docência…
Nov 12th
Devo citar neste artigo um caso excêntrico que encontrei no curso de história da UEL… Há, ou havia, já que não devo ter mais aulas com ela, uma professora um tanto quanto pitoresca – uau, essa palavra foi legal, preciso anotar e usar nos meus trabalhos -, estranha… Explico: ela tinha alguns problemas com separação da vida pessoal e profissional, trazia problemas externos para a aula e passava boa parte do tempo discorrendo sobre suas desventuras, seus problemas e suas reclamações em relação à cidade, Londrina, e à instituição. A questão é que, não bastasse o seu descontentamento pessoal com a universidade, ela ainda exaltava certas siglas que, de fato, estavam bastante abaixo do nível da própria UEL. Caso específico à parte, a discussão que proponho aqui se refere ao papel do docente: até quando cabe a inserção de experiências pessoais no conteúdo, e até onde isso não se torna prejudicial ao andamento da aula?
O papel do professor é, do ensino infantil ao superior, apresentar a seus pupilos novos questionamentos, ampliar seus horizontes de pensamento e fazer com que cada aluno possa desenvolver um potencial crítico em relação a qualquer assunto proposto no futuro. A partir disso é indispensável que o professor insira, em meio ao conteúdo, suas próprias experiências, de forma a gerar uma espécie de “reprodução” dos fatos empíricos, ou seja, práticos, em forma de acontecimentos teóricos – para fins exclusivos de reflexão. O problema se dá quando essa exemplificação extrapola os limites do bom senso e passa a afetar a construção do conhecimento sobre o conteúdo em questão – e aí é preciso tomar algumas providências…
De fato, creio que enquanto os relatos pessoais não forem pontos que façam a aula ter de se apressar ou se reduzir, não tenho objeções. No entanto, em alguns casos, as intervenções são mais do que simples segundos alheios aos livros e ao ambiente escolar, e passam a ser uma espécie de divã psicanalítico, transformando o professor em paciente e os alunos em psicólogos. Nada contra a psicologia, tampouco contra uma relação de amizade entre alunos e professores, mas sala de aula é um local de trabalho como qualquer outro, onde a relação estabelecida é profissional – lugar de reclamar do pneu furado é no corredor.
E fica minha última agulhada no que se refere às reclamações e exaltações de outras instituições por docentes: tente melhorar começando por si mesmo, ou então, já que a outra instituição é tão melhor, preste concurso e mude-se ao invés de prejudicar o aprendizado alheio. Mas… Bem… Aí é que vem a questão: será que dá pra passar?
Alienação? Tudo é relativo…
Nov 5th
Engraçado… No nosso microcosmo de universi(o)tários é muito comum encontrar termos como “alienado”, “acomodado”, ou então “subversivo”, “marxistóide”… Devo ter ouvido em alguma entrevista do Lobão algo sobre uma coisa que ele chama de patrulha ideológica. Não tiro a razão dele. A pseudo-intelectualidade – nossa, falei difícil, “mel dels!!11!” – dos nossos futuros acadêmicos me assusta bastante em relação ao futuro do debate científico nas humanidades.
Divergir das bandeiras levantadas por todos é heresia, e se desinteressar pelo cotidiano político é ainda pior, passível de fogueira à frente da reitoria. Reivindicar melhorias e pedir consciência é subversão, e não se alinhar às instituições é “rebeldia sem causa”. Acho incrível a polarização desse tipo de debate, e a facilidade com que os envolvidos se adjetivam a todo momento. O melhor é que estar aquém de ambas as pontas é sinônimo de indecisão, alienação, burrice ou qualquer coisa que o valha – quando não há o encaixe em um ou outro lado, feito pelo “time” oposto, é claro.
Entre os freqüentadores de shopping center, fanáticos por academia e viciados em futebol, e os leitores de Trotsky, filósofos de Gramsci e líderes estudantis, há uma gama de pessoas esquecidas por um modelo engessado e retrógrado – ai, falei difícil de novo… Sabe, isso me lembra bem a conceituação das classes pelo marxismo ortodoxo ou a generalização teórica elaborada por Gerardo de Cambrai e Adalberão de Laon, segundo a análise de Georges Duby.
O melhor foi ouvir que “analisar friamente ambos os ‘lados’ da argumentação e questioná-los igualmente é utopia”. A descrença em uma categoria pensante entre a “elite reveladora do sistema/massa subversiva” e a “massa alienada/sociedade padrão” me assusta às vezes. E o melhor de tudo é saber que entre os comentários que podem aparecer, muitos vão pescar pontos do texto e colocar tags do tipo “direitista, burguesinho, engomado” ou “marxistóide, intelectualóide, revoltadinho”.
Corredor polonês
Nov 1st
Quem nunca participou dessa brincadeira tão saudável? Acho que boa parte das crianças já teve que passar por isso – e até as crianças grandes, como o vídeo abaixo demonstra. Mas acho que poucas pessoas sabem da origem da brincadeira, hoje feita em vários lugares, incluindo “batizados” no jiu-jitsu. A propósito, chego a questionar se algum dos trogloditas acéfalos sabe… Mas enfim. Isso não vem ao caso.
A Segunda República Polonesa, como é chamado o estado independente estabelecido no entre-guerras, não possuía acesso ao mar, o que tornaria sua economia dependente do estado alemão. Woodrow Wilson, em um dos seus famosos 14 Pontos de 1918, definiu que era necessária a criação de um corredor de terras que ligaria esse novo estado ao mar – como era de interesse da Entente, desejando um contra-peso para a força dos alemães. Essa faixa, conhecida como Corredor Polonês, foi alvo de grande desavença entre alemães e poloneses, e o estado alemão nunca chegou a reconhecer a legitimidade da ligação polonesa com o mar – ligação esta que separou o território oeste da Alemanha da Prússia oriental.
Durante os anos de sua existência, segundo a propaganda alemã, todos os meios usados para sua comunicação com a Prússia, fossem ônibus ou aviões, eram alvos de ataques militares. É daí que vem a brincadeira.
O Corredor Polonês foi extinto com o início da era nazista na Alemanha, mas a Polônia passaria a ter um território costeiro com o fim da II Guerra, reconhecido pelo estado alemão nos tratados de Warsaw e, posteriormente, na sua reunificação, em 1990.












