"As pessoas têm medo das mudanças. Eu tenho medo que as coisas nunca mudem”.
Essa citação, bem clichê e digna daqueles conselhos calorosos de bar foi a matriz ( não caótica) do meu pensamento sobre a excelente montagem da peça de Bertold Brecht em cartaz no CCBB. Um grito, um escárnio ressentido do conformismo e da sobrevivência.
Mãe Coragem e Seus Filhos é contada durante a Guerra dos Trinta Anos, conflito entre a França e a Baviera, recortando e costurando a postura de uma mascate que, ao puxar sua carroça junto de seus filhos vive o cotidiano da guerra. A situação é precária e seus filhos morrem um por um, vítimas da guerra, do acaso e do conformismo.
Mas existe culpa para o conformismo? Sim existe, mas na mesma proporção que existe culpa naquele que mata para comer. No entanto, aquele que se conforma mata sua liberdade, mata sua consciência crítica e mata tantas outras coisas em troca da sobrevivência. Mãe coragem é um anti-herói. Ela tenta a todo custo viver da guerra, sobreviver da guerra e em troca, a guerra leva seus filhos e sua vida. O escárnio do texto de Brecht ajuda a não apenas que a idéia se torne perturbadora, mas que acima de tudo pensemos sobre o que o conformismo pode nos levar.
Mãe coragem sobrevive a tudo e a todos, mas perde no final das contas. Católico ou protestante, não importa. A guerra quando santa é aquela que mostra contornos mais cruéis. O que era coragem se torna crime e o que é covardia se torna bravura. A peça é um belo aviso. Um grito e um tapa. Mas um tapa em quem? Não é um tapa na sociedade epistemológica, nem um tapa naqueles que fazem a guerra ou em quem - detendo o poder simbólico - promove o conformismo. Não, de forma alguma. O tapa é dado em nós. Aqueles que mais cedo ou mais tarde terão de fazer a escolha de se conformar e sair com o rabo entre as pernas ou de subir na colina mais alta e bater o tambor em alto em bom tom para que todos possam escutar as atrocidades do mundo.
Conformar e sobreviver podem ser mais fáceis. No entanto, coragem mesmo é lutar. Nosso único dever para com a história é reescrevê-la.
Não nos basta rezar para dias melhores. Basta querer e estar disposto. Basta ter coragem.
