Lupercais cariocas.

por Van Pato



“Carnaval é uma grandiosa cosmovisão universalmente popular de milênios passados... é o mundo às avessas”.
(Bakhtin, 1970)

E o carnaval Antigo? Mas aquele antigo mesmo...

Temos tantas possíveis origens e tantas cores que nos perdemos às vezes em alguma explicação. Não querendo perder o fio da meada, da mesma forma que o folião não quer perder o caminho que o bloco faz, vou tentar me ater unicamente a importância e o sentimento deste festival.

Vamos pensar nas soberbas folias pagãs, em época onde marcha de carnaval era algo mais perigoso que lança perfume em mãos juvenis...

Quando o culto dionisíaco é liberado nas póleis gregas da antiguidade, algo nasce aos meus olhos. Um sentimento brota do culto, e mais que isso, uma vitalidade humana toma corpo e forma na procissão dionisíaca. E essa centelha de entusiasmo e embriagues, aliada a própria representação do deus dos prazeres do vinho dá o “ponta-pé inicial”, ao menos para mim, no sentimento do carnaval.

Teria sido então Pisistrato, tirano de Atenas nos anos de 605 a 527 a.C. que teria regularizado o culto pelas bandas de lá. O que tornou toda a algazarra parte de um corpo oficial e onde em vias de inversão, a temporalidade era tratada de forma especial, bem como os atos, e que atos! Afinal, quer forma melhor de tratar o deus marginal que com festejos? Aquele que fora expulso do Olimpo, todos os anos chegava a Pólis com seu “carro abre-alas” sendo puxado por Sátiros e Ninfas em furor embriagado, sendo festejado com músicas, danças, vinho e a tão famigerada folia sexual, o que deveria ser bem mais selvagem em épocas sem campanha televisiva de controle ao consumo de bebida e ao uso de métodos contraceptivos...

Pois veja bem, as festas dionisíacas eram em quatro e se dividiam ao longo do ano. As Dionísias Rurais, as Leneias, as Grandes Dionisias e as Antestérias, que nesta ordem se estendiam de Dezembro até Março. E assim, um casamento com a terra em busca de fertilidade ganhava forma e profusão século VI a.C. à dentro. Porém, alegria de pierrô bêbado em carnaval dura bem pouco, e, como todos devem saber, o culto que implicava em uma liberdade física jamais imaginada, tentou ser justificado e proibido no século V a.C., o século de maior desenvolvimento cultural da época. Porém, o estrago já estava feito. A selvagem folia nascera.

E os anos passaram e a selvageria da carne e dos prazeres crescera. Com o fim do período clássico (quinto e quarto séculos a.C.) Não mais Dioniso, mas agora Baco, como era conhecido o deus, fez Roma ver em sua figura igualmente entorpecida, o escape de suas tensões humanas. As Bacantes e seus festejos invadem e estouram pelas vielas romanas, levando o transe e a escandalosa desordem com seus bacanais. E tanto fizeram com o vinho, que a transgressão beirava a subversão, e, em 186 a.C. o senado suspendeu os Bacanais oficialmente, o que sinceramente, não coloca fim algum nesta prática ritual, afinal, como todos devem saber, os bacanais são apreciados até hoje em certas casas cariocas...

Mas os festivais dos prazeres e das transgressões na antiguidade não se resumem apenas ao culto bacante. Os festivais das Saturnálias com toda sua sacralidade e honra ao tempo que devora, mostra, antes de qualquer coisa, a inversão de autoridades e normas como base de um espírito carnavalesco embrionário nas estruturas romanas.

Escravos dizendo o que bem entendiam dos senhores e um ritual vigoroso de inversão que só terminava com a purificação das casas, após os dias de lascivos festejos, que com o tempo acabou por coincidir com os rituais das Lupercálias - no fatídico fevereiro - onde sacerdotes de Pã vestidos como seu culto mandava (ou seja, nus), saiam pelas ruas em grandioso fervor e estupor, batendo com chicotes em quem se aproximasse. Tudo na mais perfeita sacralidade de inversão. Afinal, o carnaval na antiguidade, assim como nos tempos mais contemporâneos se mostra como uma trégua, um alívio da hipocrisia social e do medo do corpo o qual somos culpados.

E o tempo tratou de varrer esses costumes, guardando-os na memória embriagada e fiel de uma civilização inteira, mesclando-se com tantos outros festivais ao longo da história ocidental, até chegarmos no Rio de Janeiro, local de Pierrôs que choram suas colombinas carnavalescas e com marchinhas que dão o tom da dança alegre do Pã carioca, onde o primeiro clarim anuncia a sacralidade dionisíaca que só a alegria foliã pode trazer.

Seja na Antiguidade ou nos dias atuais, o homem festeja.


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