O bruxinho Harry Potter é de esquerda, segundo o filósofo e lingüista francês Jean-Claude Milner, que fez uma leitura política inédita da saga de J.K. Rowling para jornal parisiense "Libération".
Milner afirma que as aventuras do jovem aprendiz de feiticeiro são profundamente políticas e dialogam com a Inglaterra de hoje. Este também seria, portanto, o segredo do sucesso da saga de Harry Potter --cujo último volume, à venda na França desde a meia-noite da última quinta-feira (25), teve tiragem no país de 2, 3 milhões de cópias. O "Libé" publicou o texto de Milner ontem.
"[Ao ler Harry Potter], temos a sensação de que a escritora considera, como muitos ingleses cultos, que tenha acontecido de fato uma revolução thatcheriana [referente à ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher], catastrófica, e que agora a única possibilidade para a cultura é sobreviver no mundo oculto", disse Milner.
Margaret Thatcher foi a primeira mulher a ocupar o cargo de premiê no Reino Unido e governou de 1979 a 1990.
Ela proporcionou a subida dos conservadores ao poder e o alinhamento da política inglesa com a norte-americana (de Ronald Reagan). Thatcher também combateu a inflação às custas do desemprego, que triplicou em seu governo, promoveu a privatização de empresas, ganhou popularidade ao combater com rigor a Argentina na Guerra das Malvinas, em 1982.
O filósofo faz uma comparação entre a escola de magia Hogwarts, freqüentada por Harry, e algumas escolas públicas britânicas, como a Eton. A odiosa personagem de tia Guida é uma alusão evidente a Margaret Thatcher: "no filme, ela até veste o mesmo tipo de roupas", afirma Milner.
Em um passe de mágica de Harry, a tia incha e voa pelos ares como um balão, o que o francês considerou como uma referência ao filme "O Grande Ditador" (1940) [foto], de Charles Chaplin.
Para Milder, a escritora J.K. Rowling é uma verdadeira libertária.
"É como se ela dissesse: aprendam o grego ou o latim, em vez de marketing. Assim, poderão atuar no mundo de maneira inesperada", disse o filósofo francês.
Fonte: Folha Online