Considerações Pessoais acerca das visões do OUTRO - Parte II

por Van Pato

Mais considerações acerca do Outro: Existência e Sentimento.



O Outro, quase sempre, se encontra no abismo inquietante da charada desconhecida, porém visível. O existencialismo cotidiano, assim como postulado por Sartre, pode ser de bom uso, justamente por trazer a tona às inquietações da existência, aquelas que durante séculos antigos filósofos e sacerdotes buscaram como objetivo máximo livrá-las do indivíduo.

Mas como entender essas colocações sem antes compreender que o homem é não apenas como ele se concebe – como ele quer que seja – mas, como ele se concebe depois da própria existência? A dificuldade de entender o outro se encontra no primeiro princípio postular do existencialismo que precede a essência. Encontra-se na dificuldade do ser humano de entender que o homem não é mais que meramente o que ele se faz. E o outro é parte importante na concepção inicial do que ele pode ser e tornar-se. O estranhamento que o outro nos causa é proveniente, como podem ver, do abismo existente dentro de nós mesmos para com o mundo ao nosso redor.

O homem escolhe a si e, desta forma, o estranhamento. Ele ao escolher-se, escolhe todos os outros. Nossos pequenos atos rituais, que figuram dentro do estranhamento, se enquadram dentro do ato existencial da escolha do que desejamos ser, criando nesta possibilidade a imagem - a representação em simulacro - daquilo que julgamos que um homem deve ser.

No entanto, possuímos uma consciência que não nos permite cultuar algo que não nos venha trazer, ao menos, algum benefício direto. Criamos por meio deste artifício – consciente ou inconsciente - quase sempre mais um abismo ao depararmos com um estranho, um outro que pratica de atos que não nos são caros e que – na maioria das vezes - no causam repúdio, justamente pelo desconhecimento da existência que precede a essência, aplicada aos pequenos rituais diários, bem como a nós mesmos em nossa escolha existencial.

A não adequação de nossos sentimentos pelo outro, nos foi transmitida - em grande parte - pelos antigos gregos. Aristóteles já falava em textos como a Poética e a Retórica, sobre sentimentos como a compaixão e a inveja dentro do esquema do que ele chamava de “leis particulares” (em oposição as leis gerais), as quais se encontram nestes dias atuais no que chamamos - de forma bastante controversa e mutável - de ética e moral. O outro, como nos diz Aristóteles, Não estaria sujeito a compaixão, pois esta só estaria acessível para aqueles que nos são próximos, no máximo conhecidos. O mesmo podendo se aplicar à inveja, sendo um sentimento então comum sobre aqueles que nos rivalizam, e, assim o fazem, por serem não apenas próximos, como também dotados de nossas próprias práticas e vivências. Não se sente inveja por aqueles bárbaros que moram junto das colunas de Hércules, nem por aqueles de gostos exóticos. Em verdade, para estes, nos resta a indiferença enquanto for possível. Pois, quando eles se aproximam, o estranhamento não é apenas inevitável, como também uma das faces do conflito causado pela existência – não compreendida como anterior à essência – do Outro.

E assim como Ginzburg, eu sou da opinião que, dentro do âmbito que Aristóteles chamou de “lei geral”, entender a compaixão ao outro – quando livre de preconceitos e estereótipos – só pode ser mantida e até mesmo elaborada, por meio de uma retórica tão forte que consiga colocar nós mesmos em suspensão, o que é, obviamente, uma falácia. Afinal, a má fé consiste em agirmos sem consciência da angústia que todos nós estamos sujeitos. Sem a compreensão adequada que os atos estão ligados ao coletivo e que nós, quando definimos nossas “leis particulares”, como na fala de Aristóteles, estamos em verdade, tentando escapar da consciência da existência não apenas do outro, mas de nós mesmos.



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